O médico brasileiro se prepara para o exame. Só que boa parte do risco está antes dele, e outra parte vem depois.

Série Passo a Passo · Medicina · Por Claudio Starec

Resposta rápida: para trabalhar como médico em Portugal, o formado no Brasil percorre cinco passos: análise da formação, candidatura completa à escola médica até 1º de setembro (ou o dia útil seguinte), três etapas de reconhecimento ao grau de Mestre em Medicina (exame escrito, prova prática e defesa de trabalho de conclusão), inscrição na Ordem dos Médicos e obtenção da autonomia, por Formação Geral ou por júri da Ordem. O pedido pode ser indeferido antes de qualquer prova se houver diferença substancial de conteúdos ou carga horária.

Quase todo médico brasileiro que chega até nós faz a mesma primeira pergunta: como é a prova? É uma pergunta compreensível. A vida inteira do médico foi organizada em torno de provas, do vestibular à residência, passando pelo Revalida para quem conhece o caminho inverso. Faz sentido imaginar que, em Portugal, o grande obstáculo também seja o exame.

Só que a lógica portuguesa é outra. Aqui, o médico pode ser reprovado antes mesmo de fazer a prova.

O nome técnico é indeferimento. Antes de qualquer exame, a escola médica analisa a sua formação e compara com o Mestrado Integrado em Medicina. Se encontra diferença substancial nos conteúdos ou na carga horária, indefere o pedido. O candidato nem chega a sentar para o exame escrito.

Por isso prefiro falar em cinco passos para trabalhar como médico em Portugal, e não apenas em reconhecimento de diploma médico em Portugal. O primeiro é de preparação e depende de você. O segundo e o terceiro acontecem na universidade. Os dois últimos acontecem na Ordem dos Médicos, e é justamente ali que muita gente se surpreende.

1. Analise a sua formação antes de pedir

O primeiro passo é silencioso e ninguém vê de fora. É colocar a sua formação lado a lado com o plano de estudos português, disciplina por disciplina, e descobrir onde estão as lacunas antes de entrar com o pedido. Descobrir depois, com o indeferimento na mão, é a forma mais cara de aprender.

2. Reúna a documentação e não espere pelo prazo

A candidatura pede diploma, histórico, conteúdo programático das disciplinas, escala de classificação da faculdade e o trabalho de conclusão de curso. Quem não fez TCC precisa de uma declaração da faculdade. E, como o Brasil é signatário da Convenção da Apostila, todos os documentos acadêmicos precisam ter Apostila de Haia.

O prazo limite, a cada ano, é 1º de setembro, ou o dia útil seguinte. Quem começa agora já está preparando a candidatura para o próximo ciclo. E eu sempre digo aos nossos clientes: prazo limite não é meta. Quem entra em cima da hora tem poucas semanas entre a candidatura e o exame escrito de novembro. Quem entra cedo chega à prova com a documentação resolvida e a cabeça livre para estudar. Deixado para o fim, o prazo passa a jogar contra você.

3. Três etapas, nesta ordem

Primeiro, o exame escrito, em novembro, com 120 questões. Depois, a prova prática, em março ou abril. As duas são presenciais, em Portugal. Por fim, a defesa de um trabalho de conclusão perante um júri.

Essa última etapa costuma surpreender, mas tem uma razão simples: o reconhecimento é feito ao grau de Mestre em Medicina, e o procedimento inclui, como no próprio mestrado, a apresentação e a defesa de um trabalho final. Um cuidado importante aqui é que o TCC feito no Brasil não serve automaticamente. O trabalho precisa seguir os moldes exigidos pela escola.

E uma boa notícia: no reconhecimento, o médico formado no Brasil está dispensado da prova de língua portuguesa.

4. Diploma reconhecido ainda não é autorização para atender

Este é o ponto em que mais vejo médicos confusos. Com o reconhecimento concluído, falta a inscrição na Ordem dos Médicos. Sem ela, ninguém exerce Medicina em Portugal. Para a inscrição, entram entre outros documentos o registo criminal e a certidão do CRM, emitidos há menos de três meses e legalizados. Mas atenção: inscrição não é autonomia. O médico pode estar inscrito na Ordem e ainda não ter autorização para exercer sem tutela. Esse é o quinto passo.

5. A autonomia

Inscrito na Ordem, o médico ainda precisa da autonomia para exercer sem tutela. O caminho normal em Portugal é a Formação Geral, com doze meses de prática tutelada.

Quem já exerce no Brasil pode pedir a autonomia a um júri da Ordem. O regulamento do júri considera como padrão pelo menos dois anos de atividade clínica autónoma nos cinco anos anteriores ao pedido, e o júri pode considerar outros fatores do currículo. A atividade se comprova com declarações dos locais de trabalho, com os períodos trabalhados, a carga horária semanal e as atividades clínicas desenvolvidas. Essas declarações também precisam de Apostila de Haia. E a especialidade é outro pedido, feito à parte.

O que fica de tudo isso

Se eu tivesse de resumir em uma frase, diria que o reconhecimento de Medicina em Portugal se ganha mais na preparação do que na prova. O exame mede conhecimento médico, e isso o médico brasileiro tem. Os outros quatro passos medem outra coisa: planejamento, documentação e leitura correta das regras. É aí que a maioria dos processos tropeça.

Falo isso com base no que vimos acontecer. Na Certifica MED, já são 30 médicos aprovados no reconhecimento e inscritos na Ordem dos Médicos. Três deles já têm a especialidade reconhecida em Portugal, e outros dois estão nesse processo. Aprendemos também a ser honestos sobre o tempo. Nos casos que acompanhamos, o reconhecimento tem levado em média um ano, da primeira prova à defesa, e já concluímos processos em dez ou onze meses. Na Ordem, a inscrição e a autonomia pelo júri têm levado de três a seis meses. Pela Formação Geral, somam-se os doze meses de prática tutelada. E o reconhecimento da especialidade, no colégio respetivo, pode levar de um a dois anos. São estimativas da nossa experiência, não prazos garantidos. Quem planeja sabendo disso decide melhor.

Por isso, se você é médico formado no Brasil e pensa em Portugal, o primeiro passo não é marcar a data da prova. É saber se a sua formação e a sua documentação atendem ao que a escola médica vai analisar. É exatamente isso que fazemos na Certifica MED antes de qualquer candidatura: olhamos o seu caso e apontamos o que merece cuidado, sem promessa de resultado, porque quem decide é o júri.

E se este texto foi útil, compartilhe com aquele colega médico que pensa em Portugal.

Claudio Starec é professor, doutor em Ciência da Informação e fundador da Certifica MED, que há quase dez anos ajuda profissionais de saúde brasileiros a reconhecerem seus diplomas em Portugal.

certificamed.com | WhatsApp +351 939 083 665

Perguntas frequentes

Quais são os passos para trabalhar como médico em Portugal?

São cinco: análise da formação, candidatura completa à escola médica, três etapas de reconhecimento (exame escrito, prova prática e defesa de trabalho de conclusão), inscrição na Ordem dos Médicos e obtenção da autonomia.

O médico pode ter o pedido recusado antes da prova?

Sim. A escola médica analisa a formação antes do exame e pode indeferir o pedido se encontrar diferença substancial de conteúdos ou carga horária em relação ao Mestrado Integrado em Medicina.

Quais documentos o médico precisa para a candidatura?

Diploma, histórico, conteúdo programático das disciplinas, escala de classificação e trabalho de conclusão de curso ou, na falta dele, declaração da faculdade. Todos com Apostila de Haia.

Qual é o prazo da candidatura ao reconhecimento de Medicina?

O prazo limite anual é 1º de setembro, ou o dia útil seguinte. Candidaturas feitas mais cedo dão mais tempo de preparação para o exame escrito de novembro.

O médico brasileiro precisa fazer prova de português?

Não no reconhecimento. O médico formado no Brasil está dispensado da prova de língua portuguesa no processo da escola médica.

Com o diploma reconhecido, o médico já pode trabalhar em Portugal?

Ainda não. É preciso se inscrever na Ordem dos Médicos e obter a autonomia, pela Formação Geral de doze meses ou por decisão de um júri da Ordem.

Como o médico que já atua no Brasil consegue a autonomia?

Pedindo a um júri da Ordem dos Médicos. O regulamento considera como padrão pelo menos dois anos de atividade clínica autónoma nos cinco anos anteriores ao pedido, comprovados por declaração do local de trabalho com carga horária semanal e atividades clínicas, com Apostila de Haia.

Quanto tempo leva para trabalhar como médico em Portugal?

Nos casos acompanhados pela Certifica MED, o reconhecimento tem levado em média um ano, da primeira prova à defesa do trabalho final, com casos concluídos em dez ou onze meses. Na Ordem dos Médicos, a inscrição e a autonomia pelo júri têm levado de três a seis meses; pela Formação Geral, somam-se doze meses de prática tutelada. O reconhecimento da especialidade pode levar de um a dois anos. São estimativas observadas, não prazos garantidos.

Fontes

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